blog criado para compartilhar palavras, desejos, imagens, movimentos...Um blog de " " e de confissões. Um pouco de mim e de outros...
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Desidério c'est moi ou para que servem os livros
Desidério c’est moi ou Para que servem os livros?
A célebre frase “Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu) do autor Gustave Flaubert foi a maneira inteligente e irônica que o escritor encontrou para responder as acusações que sofrera após ter escrito o romance Madame Bovary em 1857.
Flaubert, na França no século XIX após a publicação de seu livro foi levado ao Tribunal e acusado de ofensa a moral e a religião. Madame Bovary (um de meus romances preferidos) é considerado por alguns teóricos como a primeira obra literaria realista .
Da mesma forma que Emma Bovary é Flaubert, ela também pode ser eu, pode ser você, pode ser qualquer outra pessoa, mesmo duzentos anos depois de ter sido escrita e pensada. Talvez seja isso o que tanto me encanta na literatura; esse potencial de sermos outro, outros. A literatura é um convite a alteridade.
Em Pequena Biografia de desejos, através de Desidério, um porteiro curitibano, que sonha em escrever um livro, o escritor e tradutor Cezar Tridapalli desenha personagens e vida num jogo mosaico de encontros, de passado e presente, de desejo e de destino.
Desiderio do escuro de sua guarita, anota frases de livros debaixo de sua mesa de trabalho. Desiderio utiliza as “aspas “como procedimento para ir criando e tecendo seu próprio livro. O porteiro inscreve na madeira de sua mesa, palavras que despertam seus olhos e desejoS.
Assim como o porteiro, após o fim da leitura do livro Pequena Biografia de desejos dei-me conta que arranquei dele pedaços, sublinhei partes que me tocaram e os escondi em algum móvel dentro de mim.
...”a demonstração de sensibilidade sempre precisou ser vigiada entre meninos”
Longe de ser uma obra metalinguistica Pequena Biografia de desejos aponta questões ligadas ao fazer literário bem como abriga de maneira precisa e intertextual outras obras literárias. Distante também de ser um livro panfletário e bairrista o romance de estréia de Tridapalli reflete em alguns momentos sobre leitura, e sobre a relação do brasileiro ao acesso a palavra escrita (reflexão) e também passeia por paisagens e ruas conhecidas de Curitiba.
Desiderio que vem da palavra Desiderium e significa desejo, é assim como são as pessoas, como é Madame Bovary, como é Macaria (sua esposa) cheio de lugares escondidos e desejos, de simplicidades e fantasmas, de vida e de morte, de alegrias e frustrações.
...”Sabia que existiam confissões que só se faziam a própria consciência, assim como também sabia que este último pensamento, tal qual pensara, não era dele. As revelações que faziam a própria consciência jamais saíam de sua boca”
O livro e os personagens de Tridapalli (como nossa vida?) são compostos por histórias e digressões, e eles, os personagens, se cruzam de maneira casual, ou planejada, tecendo assim uma narrativa de tom biográfico, mas não por narrar de maneira linear a vida de uma pessoa, mas por construir uma vida (livro) na relação com outras vidas (obras).
O realismo poético utilizado pelo autor para escrever as 219 paginas que compõe seu livro de lançamento, torna a leitura agradável e leve, sem tornar o livro superficial ou facilitador.
Da descrição do tênis Kichute a narração dos desejo sexuais de Desidério, Cézar Tridapalli busca pelas palavras que se tornam imagens a complexidade e o trabalho árduo que é se aproximar de uma pessoa-historias numa construção ficcional.
Em uma das passagens do livro, Desiderio se pergunta quais marcas os 42 autores que lera ate então deixara no mundo e no seu mundo? Desidério como Cesar Tridapalli se questionam para que servem os livros, e apontam algumas respostas provisórias.
Para que servem os livros?
Abro apenas um lado de uma “aspa” como forma de dizer que o que escrevo são palavras de Desiderio, mas também são minhas, dos autores que li ou lerei e que só você que agora está lendo pode fechá-las.
“ Talvez os livros sirvam para nos dar habilidade de propor mais perguntas de nos preocupar com a gravidade sobre o tudo O corpo mirrado e morto,ali na minha frente também me faz pensar sobre a gravidade. Um livro serve para ser lido, como o desejo serve ao corpo, ou o corpo serve ao desejo. Um livro serve para alimentar e destruir ilusões. Um livro é um desejo que se direciona a outros desejos. Ë alguém que grita em palavras. Um livro serve para ser lido...
Pequena Biografia de desejos precisa ser lido.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Não é sobre amor. é sobre você.
Caminho devagar em direção a escadas e deparo-me com uma antiga paralisia. Adoeço calçando meus velhos tênis de corrida.Não me movo enquanto aquela nossa música não para de tocar. Keep me in mind. Você SOCORRISTA. Você salva-vidas. Eu afogado. Afogo-me com ar, tintas e clichês.
Eu, não Ofélia, afogo feito pedra que não dá leite. Afundo-me escutando sua voz grave que ainda escorre por todos os meu cantos
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Amor proparoxítona (4)
O que queria era da des-ordem do desejo, do campo vasto da palavra. Não era preciso ensinar-lhe fonemas, ou pronomes: o que queria era muito mais simples. era sua língua roçando e destruindo qualquer figura de linguagem. Não queria metáforas, queria seu pau ali dentro. Seu gemido maladroit. Assim, onde a fala é também grunhido, os dois desaprendiam seus próprios corpos.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
óculos escuros
Há dias em que os olhos não se abrem, que não há pálpebras. Há dias em que somos óculos. Escuros.
Saio de casa com olhos cerrados. Protejo-me atrás de uma lente. Não me verás. Não deixo-me ser visto. Exponho-me em forma de vidro.Olhos não são janelas. Olhos são cantos (encantos?), são quinas. Ninguém esbarra em janelas, você me entende? Ninguém tropeça janela. A gente resbala, a gente chuta são os cantos, os olhos. Olhos são quinas.
sábado, 6 de abril de 2013
Azul
Tem tanto mar aqui dentro disse ele enquanto aguava sua própria pele e todo o chão por onde passava. NÂO SE PODE CONTER UM RIO QUANDO ELE CORRE DENTRO DA GENTE
Não se pode atravessar vidro, não se pode atravessar oceanos a pé, não se pode dormir em pé.
UM DIA AZUL É UM DIA COM POUCAS NUVENS.
domingo, 28 de outubro de 2012
Pedras
Que susto levei ao acordar e perceber que ali onde deveria estar localizada minhas vísceras, órgãos responsáveis pela preservação de substâncias vitais, havia pedaços de pedras. Num domingo de outubro, sentia um medo concreto. Medo em forma de britas.
Escrevemos segundo um filosofo italiano, que eu nunca li, para tornarmos impessoais, para pôr ao mundo aquilo que nos excede, que não está presente na nossa identidade. Ou seja, escrevemos para tocar uma zona de desconhecimento.
Pela incapacidade de narrativas longas, pontuo frases lâminas e ao invés de descrever paisagens descrevo pedras. Cada pedra é uma espera. Cada pedra é uma viscera, que se tornou brita, que se tornará asfalto, que um dia virará rua, que poderá virar passagem. ou não.
Pedra 1- não saber o que fazer com braços e bocas. Olhar para ele e não entender o que fazer com um corpo que grita afeto. Tornar-se um atleta afetivo, como dizia Artaud é reconhecer que desejo é músculo e ossos. Que amor e afeto podem também se tornar lesões.
Pedra 2- (h)a mar por todos os lados. Entre anotações num caderno preto a seguinte frase chama atenção:
"Ele não está mais ao meu lado"
Pedra 3- ela, que vivia na Cãonilândia, sentia-se cada vez mais atraída por estrangeiros (forasteiros?) que chegavam na sua cidade. Ela que nunca havia pego um avião, aprendera uma língua estrangeira, com os livros de uma tia falecida, professora de francês, numa escola católica da cidade. Ela, que sabia que amour rimava com bonjour, entendia também que "corps" em francês é singular e plural. Le corps, les corps. Ela não entendia seus próprios corpos. Ela desejava o que não existia. Ela alucinava frente aos seus livros.
Pedra 4- Uma pessoa, na posição de quatro apoios, ou de quatro, como se costuma dizer mais habitualmente, espera algo que talvez nunca tenha existido. Essa pessoa está há uma hora nessa mesma posição. Ela não desespera. Ela chora.
Pedra 5- eu toco o seu braço. E agora falo de mim. Eu toco o seu braço, e dou-lhe um beijo no seu rosto. Ele me abraça forte, pega sua bicicleta e parte. (para a Cãonilândia?). Não durmo. Acordo sem estômago.
Pedra 6- ela, que perdera um amor muito nova, a cada dia inventava diferentes formas de manter-se ocupada. Ela que sentia-se atormentada com pequenas coisas,acendia velas escondida. Escondia-se de si própria o que era tormento. como formiga, carregava pequenos pesos em suas costas, e a noite fazia pequenas preces para qualquer santo.
São Genésio. Santa Clara. Santo Antônio. Santa Marta.
domingo, 14 de outubro de 2012
Fragmento Ulisses 1
Com a crueldade de uma criança que não sabe que até um corpo fragil é capaz de matar, Ulisses arranca um dos meus olhos, e sorri. Enquanto me esforço para adaptar-me a minha nova condição visual, tateio móveis e pessoas, procurando segurança em meus passos, que procuram cantos e uma palavra desconhecida que possa me tirar desse texto/ festa/casa/floresta/deserto/ que encontro-me.
Não sou eu, Penélope, vítima, pois de pequena aprendi que mesmo os animais em abate são capazes de fuga. Não /estou/sou eu, Penélope. Não sei fugir.
Como se não bastasse a ausência de um dos meus olhos, Ulisses parte, não a cavalo, mas em bicicleta, pedindo-me um carinho, que não sei ainda em que irá usá-lo. Ele, Ulisses, que com pernas firmes atravessa cidades e fantasmas, precisa do pouco que me restou para poder ir embora.
Ulisses dorme em paz?
O binômio leveza- peso, que poderia descrever Ulisses e Penélope não tem mais aqui espaço, pois não há gravidade nessa história, logo, as massas dos corpos flutuam de maneira espectral. A unica coisa que cede a gravidade é sangue, que escorre do olho furado até esvaziar toda e qualquer paisagem de festa/texto/casa/floresta/deserto que encontramo-nos.
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