quarta-feira, 22 de junho de 2011

mon coeur est une faute d'ortographie

une faute.

um texto em primeira pessoa


Atendi o telefone, e tive a estranha sensação de que nada existia, uma voz sem som do outro lado mostrava a desenvoltura de quem come um sanduiche e fala sobre amor como se falasse de notebooks. Não havia sentidonenhum ali, pensei. Tomei o medicamento dos dias sem vontade e deitei-me.

Não queria ouvir o toque do telefone. Há vozes que não transPARECEM, há adverbios de tempo que me trovejam, mas há também aqueles adverbios de esconderijo, pouco estudado pelos linguistas, que nada entendem de corpo em colapso.
Ali, naquela zona onde eu (não) podia te encontrar fechei meus olhos, e com a boca seca e a histeria de um "bom dramatico" percebi que poderia logo te esquecer. Seus lábios escondiam espaços e mentiras.


Foto de Alessandra Araujo- I know I’ll be Safe in These Arms | 2007

terça-feira, 21 de junho de 2011

justa palavra


E enquanto Paulo se repartia em água, dor e pedra, Otávio preparava o mesmo macarrão dos dias sem vontade. Sentia incômodo e leveza. Otávio fingia o não saber. Paulo, há dois dias-meses não dormia. Otávio há 3 meses-anos procurava a palavra justa para ir embora dali


Fotografia- Rose May - Uma palavra

sábado, 28 de maio de 2011

Bonecas de papel

Ela colecionava bonecas de papel, e as escondia entre segredos e fantasmas. Guardava em sua casa agulhas, saudades e marcas do tempo.
Não temia a solidão, temia espaços pequenos e sujeira nos cantos. Temia também a sensação de perder o controle de seu próprio corpo, pois sabia que corpo é selvageria, que altura é vertigem e vontade de conhecer abismos. Ela não olhava para debaixo da janela. Preferia horizontes, e eu (ele), a queda.
Ele(eu) não colecionava nada, a não ser os próprios vicios, que assim como o ato de colecionar bonecas ou moedas, é uma maneira de sobreviver a si (ao mundo).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

para esconder vazios


Ele tinha a sensação que podia esconder seus vazios da mesma maneira que via em filmes de aventura. Imaginava que vazios podiam ser tapados como buracos em meio da floresta. Encheu-se de folhas. Escondeu-se atrás de papéis, que logo viraram palavras.

A sua-minha voz alegre contradiz toda minha-sua melancolia. Sorria como quem procurava algo, caminhava como quem se perde, chorava como quem se re-partia.

Sentia-se como rascunho. E era por isso, ele, sempre uma tentativa. Solidão é desenho rabiscado em pedaços do corpo. SOlidão é esperacinza. Solidão é desejo sem pontos. Solidão rasga______________________________

sexta-feira, 29 de abril de 2011

todo diario e uma falacia. Todo diario sonha em ser lido


"Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti"


Essa noite tive um sonho estranho. Um sonho de gozo e de palavra. E como comum em sonhos, palavra e falo, em mim, penetravam. Misturo aqui sonho, realidade, diario parafrase e citacao;
Li num livro de capa bonita que a palavra ficcao vem de fingir.Entao por isso finjo/

Estou em Paris. E, sozinho, diante de uma janela olho para um mundo que me atravessa. Aqui e/esta passado e presente. Sinto a dor da bagagem carregada por horas em minhas costas; o peso da lingua. A lingua pesa e me faco entender pelos olhos. Estou em Paris como poderia estar no Rio de Janeiro, em Berlim, em Londrina ou em Marrakesh.


Meu peso e o mesmo. E se eu nada falasse, voce me compreeenderia? Fecho os olhos e desenho o caminho que meus gestos fariam se voce estivesse diante de mim. Desenho em meus pensamentos as colisoes entre meu corpo e o asfalto. Desenho a sensacao da minha boca diante da sua. Desenho quedas e aceno.

No sonho vejo seu rosto misturado ao de outros homens. Voce esta dentro e fora mim. Voce me oferece uma revista, assim, banal e poetico como o que e cotidiano.

Aqui em Paris, o ceu esta escuro e cinza; e eu penso em sair para comprar bananas. Viajar nao e chique, viajar me doi. Penso no amarelo da banana, mas me falta coragem. Me falta coragem de ver o que e real, que real nao vem de fingir, e que e do real que eu finjo. O real nos finca. Me falta coragem para comprar uma banana.

Li ontem, naquele seu livro preferido que Endecha e uma poesia que revela as dores do coracao. Conseguirei eu revelar alguma dor se nao escrever em versos?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

carta poema a um senhor discreto


Depois de passar alguns dias entre trens e abismos,
decidi que tenho poemas para um livro
e que, de alguma maneira, cada um destes poemas
é uma carta endereçada
a um senhor discreto que, pouco a pouco,
me inscreve no olvido, ao Nada.

Depois de passar alguns dias enterrado entre espaços,decidi revelar a ele ou a você, em forma de meses, aquilo que nunca deixei escapar de meus lábios.

A esse senhor escrevo com letras de FORMA, com certa FORMALIDADE, de quem esconde pensamentos perversos, de quem esconde rasgões por debaixo da roupa.

O primeiro poema "JANEIRO" tem quase nada de beleza, pois nele o sol estala e aquece demais palavras ou vontades. Janeiro é um poema de quem não dorme, de quem não entende muito de verão.

Esse senhor pequeno discreto e de óculos, dificilmente muda a feição de seu rosto. Para ele entrego envelopes em cor parda, e a cada nova cartamêspoema tento me aproximar das veias saltadas de suas mãos. De olhos fechados suas veias e mãos atravessam meu corpo.

O poema FEVEREIRO é um desejo por carnaval, é um poema fantasia. A esse sonhor discreto peço apenas que compreenda que devaneio é também uma forma de sobrevivencia.

MARÇO ABRIL E MAIO foram mesespoemas de paralisia, pois com eles senti que minhas palavras podiam ser ausências, e era de ausências que esse senhor mais fugia.

JUNHO entreguei a ele um poema -envelope. Nele apenas uma folha vazia, e com ele todo o clichê conceitual que acompanhava meus pensamentos e minha espera.

Aos poucos esse senhor começou a me conhecer e reconhecer as pistas de meu amor-palavras. Antes de postar a carta JUNHO, recebi dele por mensagem, um recado dizendo que não aceitaria nem a palavra FRIO, nem INVERNO. Era como se ele descobrisse toda minha previsibilidade.

Não tive resposta, nem poema. O livro que agora escrevo, é um ano sem o mês junho. Fiquei um mês sem escrever.

A esse senhor discreto enviei juntamente com o poema JULHO pedaços de neve que viraram água.

AGOSTO foi o primeiro poema com humor, um poema chiste. De palavras e ditos populares. Cachorro louco, noiva e até desgosto se fundiram em rimas aparentemente pobres, mas com uma certa ironia. Não sei se você, ou mesmo o senhor discreto conseguem ver ironia que é essa dor de.

Dor de SETEMBRO
em cada lugar que procuro
tropeço nos mesmo buracos
viver é esse transito
entre vícios e colapsos

Sua resposta calou-me por mais um mês. Descrevo aqui, nesse livro, que é também de amor e vingança a sua mensagem: "não compreendo como tem coragem de rimar buraco com colapso"

OUTUBRO meu peito doia, e decidi que só iria escrever com rima. Dentro do envelope pardo, entreguei ao senhor discreto uma lauda de palavras que rimassem com OUTUBRO. Já não posso pronuncia-las

NOVEMBRO e DEZEMBRO enviei-lhe poemas com pedaços de minha pele. eram peomas de fim, e neles anexei dois de meus ultimos sonhos. Junto com minhas palavras envie-lhe meu corpo em forma onírica. NOVEMBRO E DEZEMBRO me expus em imagens.

O senhor discreto enviou-me numa maleta, em quase véspera de mudança de poema,digo, de ano, todos os meus envelopes e cartas, com um PEDIDO em LETRAS GARRAFAIS...

"NAO SUPORTO O PESO DE UM PAPEL"