domingo, 3 de julho de 2011

uma conversa sobre tatuagens

Ainda não sei se consigo sentar ao teu lado, abrir o estômago, embrulhar o estômago. Desaprendi a dirigir como perdi novamente o controle. Meus ossos, tão rígidos se tornaram frágeis como aquela banal conversa sobre tatuagens e furos nas orelhas.

Não há amor sem palavra, e segundo aquela autora que você ainda não conheceu, toda palavra é tatuagem. Você falava de brincos e tatuagens enquanto meus órgãos, visceras e coração passeavam em roda gigante pelo meu corpo. A clichê espressão "o coração que sai pela boca" tornou-se carne.

Não há amor sem tatuagem, vc me disse então. E logo em seguida perguntou se minha pele era lisa, quero dizer, sem desenho algum, por medo de amarcair.

Não ha amor sem cicatriz, te respondi. E ali mesmo, tirei minha blusa e lhe mostrei cada marcamor que tive pela vida

quarta-feira, 22 de junho de 2011

mon coeur est une faute d'ortographie

une faute.

um texto em primeira pessoa


Atendi o telefone, e tive a estranha sensação de que nada existia, uma voz sem som do outro lado mostrava a desenvoltura de quem come um sanduiche e fala sobre amor como se falasse de notebooks. Não havia sentidonenhum ali, pensei. Tomei o medicamento dos dias sem vontade e deitei-me.

Não queria ouvir o toque do telefone. Há vozes que não transPARECEM, há adverbios de tempo que me trovejam, mas há também aqueles adverbios de esconderijo, pouco estudado pelos linguistas, que nada entendem de corpo em colapso.
Ali, naquela zona onde eu (não) podia te encontrar fechei meus olhos, e com a boca seca e a histeria de um "bom dramatico" percebi que poderia logo te esquecer. Seus lábios escondiam espaços e mentiras.


Foto de Alessandra Araujo- I know I’ll be Safe in These Arms | 2007

terça-feira, 21 de junho de 2011

justa palavra


E enquanto Paulo se repartia em água, dor e pedra, Otávio preparava o mesmo macarrão dos dias sem vontade. Sentia incômodo e leveza. Otávio fingia o não saber. Paulo, há dois dias-meses não dormia. Otávio há 3 meses-anos procurava a palavra justa para ir embora dali


Fotografia- Rose May - Uma palavra

sábado, 28 de maio de 2011

Bonecas de papel

Ela colecionava bonecas de papel, e as escondia entre segredos e fantasmas. Guardava em sua casa agulhas, saudades e marcas do tempo.
Não temia a solidão, temia espaços pequenos e sujeira nos cantos. Temia também a sensação de perder o controle de seu próprio corpo, pois sabia que corpo é selvageria, que altura é vertigem e vontade de conhecer abismos. Ela não olhava para debaixo da janela. Preferia horizontes, e eu (ele), a queda.
Ele(eu) não colecionava nada, a não ser os próprios vicios, que assim como o ato de colecionar bonecas ou moedas, é uma maneira de sobreviver a si (ao mundo).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

para esconder vazios


Ele tinha a sensação que podia esconder seus vazios da mesma maneira que via em filmes de aventura. Imaginava que vazios podiam ser tapados como buracos em meio da floresta. Encheu-se de folhas. Escondeu-se atrás de papéis, que logo viraram palavras.

A sua-minha voz alegre contradiz toda minha-sua melancolia. Sorria como quem procurava algo, caminhava como quem se perde, chorava como quem se re-partia.

Sentia-se como rascunho. E era por isso, ele, sempre uma tentativa. Solidão é desenho rabiscado em pedaços do corpo. SOlidão é esperacinza. Solidão é desejo sem pontos. Solidão rasga______________________________

sexta-feira, 29 de abril de 2011

todo diario e uma falacia. Todo diario sonha em ser lido


"Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti"


Essa noite tive um sonho estranho. Um sonho de gozo e de palavra. E como comum em sonhos, palavra e falo, em mim, penetravam. Misturo aqui sonho, realidade, diario parafrase e citacao;
Li num livro de capa bonita que a palavra ficcao vem de fingir.Entao por isso finjo/

Estou em Paris. E, sozinho, diante de uma janela olho para um mundo que me atravessa. Aqui e/esta passado e presente. Sinto a dor da bagagem carregada por horas em minhas costas; o peso da lingua. A lingua pesa e me faco entender pelos olhos. Estou em Paris como poderia estar no Rio de Janeiro, em Berlim, em Londrina ou em Marrakesh.


Meu peso e o mesmo. E se eu nada falasse, voce me compreeenderia? Fecho os olhos e desenho o caminho que meus gestos fariam se voce estivesse diante de mim. Desenho em meus pensamentos as colisoes entre meu corpo e o asfalto. Desenho a sensacao da minha boca diante da sua. Desenho quedas e aceno.

No sonho vejo seu rosto misturado ao de outros homens. Voce esta dentro e fora mim. Voce me oferece uma revista, assim, banal e poetico como o que e cotidiano.

Aqui em Paris, o ceu esta escuro e cinza; e eu penso em sair para comprar bananas. Viajar nao e chique, viajar me doi. Penso no amarelo da banana, mas me falta coragem. Me falta coragem de ver o que e real, que real nao vem de fingir, e que e do real que eu finjo. O real nos finca. Me falta coragem para comprar uma banana.

Li ontem, naquele seu livro preferido que Endecha e uma poesia que revela as dores do coracao. Conseguirei eu revelar alguma dor se nao escrever em versos?