
Therèse
Alterna água quente e gelada sobre seus seios. Sente bolhas pelo corpo, e ouve o barulho de seus estouros. Grita em quase silêncio enquanto enterra seus pés num jardim. Uma mulher a observa pela janela.
blog criado para compartilhar palavras, desejos, imagens, movimentos...Um blog de " " e de confissões. Um pouco de mim e de outros...

Escrever é apenas uma tentativa de tornar visível aquilo que não consegui ver, que me escapou entre os dedos, junto com você. Se descrevesse cenas, ou criasse qualquer narrativa estaria cada vez mais longe daquela sensação estranhamente conhecida que é a da impresença. Ao seu lado, imagens se confundiam com memórias. Fechei os olhos, e como o menino do filme, me tornei uma formiga.
Bom, dizem que não existe encontro entre duas pessoas, mas sim entre dois desejos. Então parto desse ponto para tentar me/te/nos explicar. Seu medo encontrou meu desejo, e isso te causou um certo espanto.
Meu espanto foi de ver você partindo num ônibus, com medo até de olhar para trás. Disse que não descreveria cenas, e caio eu na descrição mais clichê possível, a de uma despedida. Alguém que vai embora e não olha para trás. Alguém incapaz de ser tocado.
Prometo também não falar a palavra coração pra descrever o aperto que senti ao saber que sua impresença era medo dos meus gestos, meus gestos maladroites, do meu corpo inquieto e das minhas palavras esburacadas. Não repetirei a palavra coração pois ha tempos aprendi que celulas neuronais estão espalhadas em outros órgãos do corpo, o que justifica o meu descontrole, e os meus tombos, o que explica as incessantes endoscopias, que nada acusam.
Fechei os olhos e me tornei uma formiga.
Fotografia de Ricardo Pozzo "O sexo despedaça o corpo e o amor o reconstitui" C. Calligaris
Na escada vive a Mulher sem Rosto. Uma mulher nua. Quase Rompida. São 11 horas da manhã. A mulher está já um pouco atrasada. A força da imagem ao lado (a fotografia) é mais forte do que essas palavras que com urgência abandono nessa tela. Toda pessoa ja deve ter ouvido a ironia de alguem que diz que vai passar perfume para tirar uma foto. Nessa ironia cliche esconde uma pergunta preciosa. Que cheiro tem algumas imagens? E por que algumas imagens não tem cheiro e nem forma? são sobre perguntas clichês, sobre estados clichês que surgem alguns esboços narrativos. . Esse é um texto clichê. Sobre o corpo depois do sexo, sobre o estranho prazer e solidão de se sentir fodido. A mistura de leite de rosas e esperma espalha-se por toda a arquitetura do prédio antigo. O homem que acabara de partir também não tem rosto. Ela está deitada e ainda sente a ausência e a dilatação que arde em seus buracos. Ela está ocre. A dor que sente é memoria física da recente penetração È. uma constatação. E uma dificuldade em se levantar e juntar seus cacos/pele, seus cacos/desejos, seus cacos/ mulher. Prostrada ela sente o cheiro espalhado pela escada. Cheiro do homem que partiu, cheiro de lagrimas e pó. Ela, a mulher sem rosto, sabe que precisa sair dali, que precisa se levantar e se arrumar para ir trabalhar, para mais um dia fingir que suas pernas são suficientemente fortes para sustentar seu salto-alto. Em qualquer outro canto da cidade o Homem sem Rosto caminha pensando que nunca mais verá a Mulher da Escada, lembra de alguns de seus compromissos da semana, e rapidamente procura alguma revista numa banca de jornal, na tentativa de disfarçar um pequeno nó que apareceu entre seu pescoço e peito.